Portas abertas para a construção da paz na Somália

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ENTREVISTA / Celestin Nkundabemera

Celestin_N_AFSC_MenorDENTRO.jpgCelestin Nkundabemera é o diretor de programas do American Friends Service Committee (AFSC) na Somália e dá suporte aos esforços nacionais de construção de paz. O trabalho da organização na Somália trabalha com muitos conceitos-chave: desenvolvimento, direitos humanos, segurança comunitária, prevenção e mediação de conflitos, entre outros. Na prática, isso significa chegar a comunidades devastadas por 20 anos de guerra e reconstruir sua capacidade de ter paz.

Nkundabemera, que esteve presente no Workshop do Comunidade Segura em outubro de 2010, em Nairóbi, no Quênia, descreve como sua organização tem ajudado na reativação de poços e na criação de um centro de distribuição de água que emprega mulheres em sua gestão. Ele também destaca o papel crucial desempenhado pelas mulheres e idosos somalis na neutralização de conflitos e como as alianças dos clãs, manipulados para fomentar a guerra, podem trabalhar a favor da paz.

O Programa de Paz do American Friend Service Committee (AFSC) tenta abrir novas portas para os jovens que nasceram e cresceram em meio à guerra, para ajudá-los a começar seu próprio negócio: as meninas aprendem a costurar e os meninos são capacitados em metalurgia. Em um país onde quase um terço da população foi deslocada por causa da guerra, o AFSC também tem colocado à disposição dos jovens equipamentos de fotografia e vídeo em campos de refugiados, para ajudá-los a entender que "a vida não se resume à violência, ela é mais do que isso".

"Nosso programa se concentra na ajuda à reconstrução de comunidades que sofreram o impacto da guerra. Estamos colocando foco na reestruturação da capacitação de organizações da sociedade civil, que realizam um trabalho 'de formiguinha', junto à comunidade", disse Nkundabemera. No continente africano, o AFSC atua no Burundi, no Zimbábue e na Somália. Nesta entrevista, ele fala sobre o trabalho na Somália

Onde o senhor trabalha na Somália e quantas pessoas o Programa de Paz no país atinge?

Estamos trabalhando com o Programa de Paz durante os últimos dois anos na região de Gedo, na Somália. Trabalhamos com organizações de base: o projeto de água fica em Berbera, a capacitação de jovens em Burahowa e os comitês de paz e os projetos de mediação estão localizados em Elwak. Cada projeto inclui um aprendizado sobre paz. Atualmente trabalhamos diretamente com cerca de 900 pessoas. Indiretamente, considerando que cada família somali tem uma média de sete filhos... Vê-se que atingimos muito mais gente.

Que tipos de desafios o programa enfrenta?

Há dois grandes desafios na região, após 20 anos de guerra. O primeiro é encontrar fontes de renda e sustento para os jovens - muitos dos quais estão deslocados, morando longe de seus lares. Já o segundo é o conflito causado pela escassez de recursos. Precisamos garantir que as comunidades tenham acesso à água, elemento que representa uma fonte contínua de tensão e motivação para que os clãs da Somália invadam terras que não lhes pertence.

Obviamente, para trazer paz é preciso dar oportunidades de trabalho aos jovens. A maioria geralmente se envolve em conflitos porque não têm mais nada pra fazer. Logo, a guerra se torna um emprego, uma oportunidade.

Mas, para atingi-los, há dois outros pontos importantes. Na Somália, primeiro precisamos consultar os idosos somalis, que têm papel-chave na criação de um ambiente de paz, antes que se comece qualquer programa. Também descobrimos que as mulheres representam um fator secundário bastante importante para que os homens entrem na guerra. Seu papel, portanto, não pode ser negligenciado.

Que tipo de habilidades são ensinadas aos jovens?

Oferecemos treinamento em alfaiataria e metalurgia. Possibilitamos às meninas o aprendizado de costura de roupas, para que assim elas possam vendê-las. Os meninos aprendem metalurgia para confeccionar portas, janelas e outros produtos de materiais similares. Além destas capacitações, ajudamos estes adolescentes a aprenderem como começar e gerir pequenos negócios, estimulando-os a formarem pequenos grupos.

Tudo isso caminha de mãos dados com o esforço de manutenção de paz e com a coexistência pacífica. Reforçamos a importância da paz, de saber como conviver pacificamente - em comunidades que abrangem grupos com históricos étnicos diferentes. É um pacote completo.

Como a ajuda dada à organização de recursos hídricos se relaciona com a prevenção de conflitos?

Criamos comitês de gestão de água e estas organizações, obviamente, são treinadas para lidar com conflitos causados por escassez de recursos. A ideia é fazer com que essas comunidades possam gerir seus próprios recursos de uma forma tal que todos os animais e também todos os lares tenham acesso à água, minimizando, assim, os conflitos.

Essas comunidades têm lares fixos ou são nômades?

Muitos têm uma casa na localidade e, mesmo que se mudem, não é para muito longe. Na maioria dos casos, quando se mudam, é porque estão à procura de água. Quando se tem água, a tendência é ficar por mais tempo. Logo, o aumento da disponibilidade de água significa também a moradia permanente de muitas comunidades em lugares específicos. Isto é bom para reduzir conflitos, já que não será preciso que uma tal comunidade se mude para uma terra que pertença a outras comunidades, o que significa evitar confrontos desnecessários.

Sobre os poços, vocês importam tecnologia ou especialistas estrangeiros?

Atualmente estamos reativando uma infraestrutura já existente, que foi danificada durante o conflito. Como o país esteve em guerra durante 20 anos, estamos trabalhando junto à comunidade para reativar esses poços. Grande parte da tecnologia já existe, localmente. Não é preciso recorrer à expertise de fora.

O senhor disse que os idosos somalis desempenham um papel importante. Pode explicar melhor?

Na tradicional sociedade da Somália, o papel dos anciãos é muito importante. Eles são os pilares da sociedade, que os olha como símbolos de inspiração e liderança, especialmente em circunstâncias difíceis. Para o AFSC, é fundamental restaurar o papel desses líderes tradicionais na construção da paz. Eles simplesmente não podem ser negligenciados na Somália.

Por exemplo, no projeto de água, não se pode ter a participação dos jovens - a menos que os idosos sejam envolvidos. Então começamos com uma pesquisa na área, uma consulta na qual nossos parceiros explicam aos anciãos do que se trata o projeto, quais são os objetivos que deseja atingir e que benefícios pode trazer à comunidade. Uma vez que os idosos aprovam, eles trabalham junto aos nossos parceiros para realizar o projeto. Eles são muito importantes no treinamento dos jovens e também no projeto de água. Eles ainda são membros dos comitês de gestão de água.

Eu diria que, em geral, esses idosos são homens. Certo?

Eles são, sim, homens, e a grande parte dos contatos iniciais são feitos com homens. Tentamos estimulá-los a entender o papel que as mulheres têm nesses projetos. Por exemplo, dizemos que, se as mulheres não puderem costurar vestidos, o comitê não terá roupas.

Ao mesmo tempo em que lhes dizemos que as mulheres direcionarão a água para cozinhar e por aí vai, é muito importante que elas tomem parte nos comitês de gestão de água. Também dizemos que as mulheres tem que ser incentivadas.

É importante dizer que as mulheres desempenham um grande papel secundário nos conflitos na Somália - logo, da mesma forma, elas também têm um papel importante na promoção da paz. Se, por exemplo, uma mulher reclama que seu marido é um covarde, que outros homens estão lutando e ele é o único dentro de casa, sem função, esse homem eventualmente vai lutar. As mulheres têm um discurso poderoso, que é frequentemente ignorado. Nós incentivamos as mulheres a participarem da maioria dos papéis de liderança na Somália.

O senhor também trabalha com as pessoas deslocadas (do inglês Internally Displaced People, IDP) na Somália. Eles pretendem se estabelecer fixamente onde estão agora?

Temos em torno de um milhão de pessoas deslocadas na Somália (na região centro-sul do país, especialmente), em relação a uma população total de três milhões e meio de pessoas. Logo, quase um terço da população do país é de pessoas deslocadas. Eles estão espalhados pela Somália ou saíram do país rumo aos campos de refugiados.

Nossa organização trabalha especialmente com os jovens refugiados do campo de Daadab, no Quênia. Trabalhamos em cima de suas capacidades, usamos fotografia e produções de vídeo como uma Alternativa ao Programa da Violência. Reconhecemos o fato de que eles convivem com o conflito por 20 anos. Muitos nasceram no campo e não conheceram outra forma de governo que não a organização do próprio campo.

O senhor poderia explicar a "Alternativa ao Programa da Violência"?

A mensagem que queremos transmitir a eles é que a vida não se resume à violência. Há uma alternativa. A Alternativa ao Programa da Violência tem sido desenvolvida pelos Quakers nos Estados Unidos e aplicada em muitos países da África. Ela se tornou popular especialmente entre os jovens refugiados somalis em Daadab. Ela os incentiva a enxergar os outros lados da vida, não só a violência. O próximo passo para nós é levar este mesmo programa para a região central da Somália, para ver como as pessoas deslocadas dentro do país lidarão com ele. Mas o programa ainda está em fase inicial, eu não posso falar muito sobre ele neste momento.

Como o senhor descreveria os princípios-chave do AFSC?

A AFSC trabalha para transformar condições e relações, tanto no mundo quanto em nós mesmos, que ameaçam oprimir o que se tem de mais precioso nos seres humanos. Nutrimos a fé de que conflitos podem ser resolvidos de maneira não-violenta, de que inimizade pode ser transformada em amizade, os conflitos em cooperação, a pobreza no bem-estar e a injustiça em dignidade e participação. Acreditamos que o bem pode prevalecer sobre o mal e a opressão, em suas inúmeras manifestações, pode ceder.

Tradução: Mariana Mello

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