• user warning: Table './comunidade/sessions' is marked as crashed and last (automatic?) repair failed query: SELECT COUNT(sid) AS count FROM sessions WHERE timestamp >= 1495707872 AND uid = 0 in /var/www/comunidadesegura.org/includes/database.mysql.inc on line 172.
  • user warning: Table './comunidade/sessions' is marked as crashed and last (automatic?) repair failed query: SELECT DISTINCT u.uid, u.name, s.timestamp FROM users u INNER JOIN sessions s ON u.uid = s.uid WHERE s.timestamp >= 1495707872 AND s.uid > 0 ORDER BY s.timestamp DESC in /var/www/comunidadesegura.org/includes/database.mysql.inc on line 172.

'É preciso ter um relacionamento com os usuários'

ENTREVISTA / Allan Clear

Alan_Clear_HRC_TOPO.jpgNo coração do "quartel general" da guerra contra as drogas, uma organização sem fins lucrativos se mantém firme na defesa dos direitos dlos usuários de drogas ao longo de quase 20 anos.

A Harm Reduction Coalition (HRC - Coalizão para a Redução de Danos) começou a trabalhar em Nova York em 1994 para promover a saúde e a dignidade de pessoas e comunidades afetadas pelo uso de drogas.

O que começou com a troca de seringas para evitar que os usuários de drogas injetáveis se contaminassem com o HIV no início dos anos de 1990, se consolidou como a organização líder em programas de redução de danos nos Estados Unidos com um trabalho voltado para a participação política e a construção de habilidades comunitárias para lidar com o problema.

Em entrevista ao Comunidade Segura, Allan Clear, diretor da organização desde 1995, compartilhou sua experiência sobre o que funciona e o que não funciona em matéria de redução de danos; fala sobre a importância de se construir vínculos com os usuários de crack; das dificuldades que os profissionais da saúde enfrentam para se relacionar com os usuários de drogas e de como a atual polarização política nos Estados Unidos afeta o trabalho de redução de danos.

Mudou a percepção que as pessoas tinham sobre os usuários de drogas ao longo de quase 20 anos de trabalho da HRC?

O estigma sobre os usuários de drogas não mudou muito. Tivemos uma forte propaganda de guerra contra as drogas por mais de 40 anos, assim, para nós, como organização sem fins lucrativos, ter um impacto na mentalidade das pessoas é uma tarefa enorme. Mas eu acho que houve uma mudança no que se refere à prevenção da transmissão do HIV em lugares como São Francisco e Nova York, onde este trabalho é bem visto.

Esses avanços são reconhecidos no nível governamental?

Em São Francisco, uma organização sem fins lucrativos que queira prover serviços a usuários de drogas pode contar com o governo da cidade. Ou seja, as autoridades aceitam que as organizações trabalhem com usuários de drogas não apenas enviando-os para programas de tratamento para que deixem as drogas.

Na cidade de Nova York existem muitos programas de redução de danos com troca de seringas, busca de moradia para usuários de drogas, programas de educação e acesso de usuários de drogas ao sistema de saúde.

Quais são hoje os maiores desafios para os programas de redução de danos?

Depende do lugar. A HRC tem um escritório-oficina na Califórnia e outro em Nova York e, mesmo sendo uma organização nacional, sabemos que não podemos fazer grandes progressos em lugares como o Texas, por exemplo.

Assim, ativamos nossas redes com pessoas em todos os estados e fazemos conferências nacionais mas não podemos estar no campo em todos os lugares. Desde a chegada de Obama e depois da mudança do Congresso em 2006, temos realizado mais um trabalho de política federal em Washington porque vimos que existia espaço para dialogar.

Quais são as drogas mais consumidas atualmente nos Estados Unidos?

Depende do grupo ou da área. A população afro-americana continua tendo problemas com o crack, o que não foi adequadamente reconhecido como tal, apesar da resposta repressiva de prender as pessoas. É um problema que também está presente em regiões rurais no sul do país.

E com relação às outras drogas?

Também temos consumo de metanfetaminas entre populações rurais, onde a resposta também tem sido a repressão. Existe o uso de metanfetaminas na comunidade gay, majoritariamente branca, de Nova York, mas, neste caso, a resposta do Estado é a oferta de tratamentos médicos.

Em outras palavras: as pessoas que vivem em áreas rurais e os pobres recebem como resposta a repressão e os brancos da comunidade gay recebem uma resposta de saúde. Temos também consumo de heroína entre os adolescentes dos subúrbios em diversas cidades como Nova York, Baltimore e Boston.

Em que áreas estão ocorrendo as maiores demandas?

No sul dos Estados Unidos não existem programas de troca de seringas ou serviços de saúde para usuários de drogas. Avançamos na prevenção de overdose e conseguimos treinar um grande número de usuários de drogas no uso da nalaxona (susbtância usada para reverter estados de coma e insuficiência respiratória por intoxicação por opiáceos) em diferentes comunidades. Hoje, 70 programas fornecem esta substância.

A oposição à redução de danos é moral ou existem outros interesses?

É uma luta cultural. O grupo mais conservador é contra o aborto, os direitos dos gays, dos imigrantes, das trocas de seringas e da legalização das drogas. Estamos trabalhando para conseguir que as pessoas que estão em perigo se mantenham vivas e os conservadores fazem oposição sem pensar nisso. Não acreditam, pensam que estamos defendendo os direitos dos usuários de drogas porque queremos que as crianças se tornem viciadas em crack.

O discurso de Obama com relação ao tratamento que os usuários de drogas devem receber se traduziu em medidas concretas?

Sim, mas a um ritmo muito lento. Isto vai levar várias gerações. Obama está lidando com a economia e não vai tocar em nenhum outro tema que signifique uma complicação adicional, como poderia ser o tema dos usuários de drogas. Os republicanos vão dizer "vejam, este presidente está fazendo coisas para os viciados".

O que funciona e o que não funciona em redução de danos?

A primeira coisa para se trabalhar com redução de danos é aceitar que trabalhamos com gente que usa drogas. Se aceitarmos isso, vamos poder escutar as pessoas e determinar qual é a solução que funciona para cada uma delas.

Por exemplo, é muito comum que chegue à nossa organização alguém que usa crack e tem filhos. A reação imediata é: "você tem que parar senão vão tomar seus filhos". A pessoa diz que realmente precisa encontrar uma casa, mas se eu condiciono a busca de uma solução de moradia à suspensão da droga, não iremos muito longe. Fumar crack é compreensível quando a pessoa não tem casa, tem medo, fome e frio. Então, trabalhar com a satisfação das necessidades básicas da pessoa é fundamental.

Como o trabalho de redução de danos evolui no longo prazo?

Para mim, o que realmente temos que trabalhar é a consciência do usuário de drogas sobre este uso. Que ele ou ela se questionem como estão fazendo isso, reflitam sobre o que isso significa para eles em diferentes níveis (emocional, espiritual, físico). Com mudanças mais consistentes podemos chegar a um nível de segurança que proteja os usuários, sua família e a comunidade.

Como se aplica a redução de danos ao uso de crack?

Com o usuário de crack o trabalho consiste em manter um contato pessoal, na construção de uma relação e na satisfação de necessidades básicas como comida, dinheiro, um lugar onde ele possa passar a noite. Conversar é importante.

Nós, como provedores de cuidados, cumprimos uma função diferente da que cumpre a família do usuário. Nós não podemos parar de ter uma relação com o usuário porque ele não cumpriu uma promessa. Mas, como membro da família, é muito difícil manter contato com alguém que desaparece por semanas inteiras ou que vende as coisas da casa.

Como vocês chegam até os usuários de drogas?

Através da comunidade e das redes que temos. São pessoas que estão mais próximas das ruas e que têm a confiança da população. O usuário chega através deles porque confia. São necessários os contatos na comunidade e também as ferramentas de contato para trabalhar com eles, como oferecer testes de HIV, um manual para usuários de drogas, seringas, soluções.

No Brasil estamos vendo o aumento do uso de crack principalmente entre moradores de rua. Como o senhor acha que este problema deve ser abordado?

O fato de haver crianças nas ruas usando drogas tem que sacudir o sistema. Tem que haver um trabalho junto às famílias, às comunidades, às escolas, aos estados… Tem que haver uma reação. Como trabalhadores de redução de danos, acredito que o que podemos fazer é ir lá, entrar no meio do ”campo de batalha” e construir uma relação com essas pessoas.

O município do Rio adotou o tratamento obrigatório para crianças e adolescentes usuários de crack nas ruas. O que o senhor acha deste tipo de medida?

Acontece o mesmo aqui: uma forte relação entre o sistema de justiça criminal e o tratamento de dependentes. Muita gente que está em tratamento foi enviada para lá pela polícia. O tratamento obrigatório é um tema complicado porque pode ser que funcione para um grupo pequeno de pessoas. Mas eu acho que ninguém deve ser obrigado a receber tratamento e que ninguém deve ser colocado em uma jaula por usar drogas. Tem que haver oferta de tratamento de boa qualidade para usuários de drogas para que as pessoas possam aderir sem necessidade de serem obrigadas.

Vocês têm apoio do governo?

Em Nova York temos muito apoio da prefeitura. O departamento de saúde trabalha fortemente com redução de danos e existem funcionários de alto nível preocupados com prevenção de overdose. A situação varia dependendo do estado e do nível federal, estatal, municipal. Existem exemplos positivos em Nova York, São Francisco, Baltimore, Havaí.

Vocês implementam programas em conjunto com instituições oficiais?

Sim, por exemplo com o Programa de Assistência para o Desenvolvimento de Capacidades (Capacity Building Assistance Programme), que é financiado pelo governo federal, para o controle de doenças. Nosso trabalho é ajudar organizações locais a implementar intervenções do governo nesse sentido. Ajudamos as organizacões locais a formar sua junta de diretores, avaliar sua infraestrutura ou verificar se a podem fazer prevenção de contágio por HIV de forma eficiente.

Como é a relação da HRC com a polícia?

Em alguns pontos específicos, fazemos treinamento com policiais, principalmente sobre o tema de troca de seringas. Mas muitos programas não têm relação nenhuma com a polícia, o que é surpreendente.

Não existem muitos policiais que assumem publicamente que são favoráveis à redução de danos. São necessários policiais muito corajosos para dizer "apoio esta iniciativa ainda que seja para estas pessoas que não cumprem a lei". Os policiais dizem em particular que entendem de que se trata, mas não o farão publicamente.

Qual é a área de maior dificuldade em seu trabalho?

A relação entre a comunidade médica e os usuários de drogas. Ainda não conseguimos hemos fechar esta lacuna. Neste país ninguém tem um bom acesso à saúde pública, mas é ainda pior quando se é pobre e usuário de drogas. Neste caso, você tem toda atenção de saúde negada.

Em outros sites:

Harm Reduction Coalition

Drug Pollicy Alliance

New Drug Policy

Comentar

O conteúdo deste campo é mantido privado e não será publicado.
CAPTCHA
Isso serve para verificar se você é um visitante de verdade e não um robô, evitando, assim, o envio automático de spam.
Image CAPTCHA
Copy the characters (respecting upper/lower case) from the image.