Braço forte, mão amiga

Nos próximos anos, o Brasil deverá se tornar referência internacional em preparação de tropas para Forças de Paz da ONU. O primeiro passo para isso é a inauguração, nesta segunda-feira, 18 de dezembro, do Centro de Instrução de Operações de Paz (CiopPaz), na Vila Militar, em Deodoro, no Rio de Janeiro. O objetivo do Exército é que o CiopPaz seja um centro de excelência e referência da ONU para a América do Sul e o mundo em operações de paz.
O Centro, que já funcionava como núcleo, treinará tropas, observadores militares e oficiais de estado-maior do Brasil inteiro, seguindo os pacotes da ONU, que incluem orientações sobre regras de engajamento, uso de armamento e comportamento. De acordo com o comandante do CiopPaz, tenente-coronel André Luiz Novaes, oficiais e sargentos serão enviados a outros estados para preparar seus contingentes. É o caso dos mil homens baseados em Santa Maria, no sul do Brasil, que serão preparados a partir de janeiro para embarcarem para o Haiti, onde ficarão seis meses, substituindo o 6º Contingente, do Mato Grosso, enviado no início de dezembro.
Durante a preparação, os militares recebem instruções sobre patrulhas motorizadas e a pé, posto de bloqueio de controle de vias urbanas, posto de segurança estático, operações de controle de distúrbios, instruções de tiro e tarefas específicas de engenharia de construção, adaptadas ao maquinário existente no Haiti, além do Standard Generic Training Module (SGTM) - o pacote padrão da ONU.
“O Brasil já tem tradição em missões de paz, e o CiopPaz fará com que os recursos humanos brasileiros no exterior sejam cada vez mais bem preparados”, afirma Novaes, que comandou o 3º Contingente brasileiro de forças de paz no Haiti. “Foi a maior experiência da minha carreira em 30 anos de Exército”, revela o oficial, que também foi observador militar na antiga Iugoslávia em 1996.
Além das tropas de paz do Haiti, o CiopPaz também preparará militares que cumprirão missões individuais, de um ano, em outros países em guerra, como Sudão, Congo, Costa do Marfim e Chipre. Outro enfoque do centro é a capacitação da Companhia de Engenharia, cuja missão é contribuir para a melhora da infra-estrutura dos países destruídos pela guerra, com a reparação de vias e edificações e a construção de poços artesianos, pontes e demais obras.
Sexo não
Segundo o oficial, um dos aspectos mais enfatizados durante os quatro meses de preparação das tropas são os cuidados no relacionamento com a população local. “O contato com os locais é exclusivamente profissional. Os militares brasileiros são proibidos de sair da base. Só saem a serviço ou em passeios coletivos. Nas folgas, são levados de ônibus a praias”, conta. O comandante do CiopPaz explica que a ONU proíbe o sexo com pessoas locais para evitar acusações de estupro, abuso ou assédio. “O Brasil vai ainda mais longe na política de tolerância zero da ONU, ao impedir que os militares saiam da base”, informa.
Nos seis meses de serviço no Haiti, os militares têm direito a 20 dias de licença, em que podem vir para casa rever suas famílias, viajar por países próximos ou receberem seus familiares lá mesmo. Também há de três a quatro períodos de licenças de três dias ao longo dos seis meses, em que são realizados passeios com as tropas. Novaes conta que, para melhorar a estada, o acesso à internet e telefone são gratuitos.
Espírito latino
De um modo geral, os soldados brasileiros são queridos no Haiti, conta o major Nelson Ricardo Fernandes, chefe da Divisão de Ensino do CiopPaz e oficial de Operações no 2º Contingente enviado ao país, em 2005. Ele atribui a facilidade de integração com a comunidade à alegria e o espírito latino dos brasileiros. “A proximidade cultural favorece a conversa. Os brasileiros são muito falantes, e, como os haitianos, gostam de música e festa. Essa pré-disposição a interagir facilita muito as negociações”, diz Fernandes.
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