A paz restituída a um bairro em conflito
ENTREVISTA / Robert Montinard
Robert Montinard, conhecido como Bob, fundou a organização Zakat Zanfan, de apoio a crianças de rua e jovens envolvidos em violência armada no quarteirão popular de Bel Air, em Porto Príncipe, capital do Haiti. Hoje, Bob é encarregado da Comissão Nacional de de Desarmamento, Desmobilização e Reinserção (CNDDR) e coordenador de território no projeto Honra e Respeito por Bel Air, do Viva Rio. Ele conversou com o Comunidade Segura sobre sua experiência com crianças e jovens durante o conflito que assolou seu bairro nos últimos anos.
Como você acredita ter contribuído para fazer com que a vida da população local fosse afetada o menos possível pelo conflito?
O conflito começou em 2000. Em fevereiro deste ano, graças à música, eu cheguei à comunidade de Bel Air. Organizamos festas de hip hop e aproveitamos a oportunidade para discutir o que poderia ser bom ou ruim para a comunidade. Enquanto há esperança e descontração, a comunicação se estreita com a população local. Ela se sente menos afetada pelo conflito, o que estimula a troca de informações e o desenvolvimento.
Qual era o papel da organização onde você trabalhava dentro da situação de conflito?
Promovíamos atividades culturais, como festivais de música com grupos de jazz, e campeonatos de futebol. Em 2004, criamos uma pequena organização local chamada Zakat Zanfan, para facilitar o acesso de ONGs internacionais e nacionais a Bel Air. A Zakat Zanfan foi um elemento facilitador das atividades de DDR promovidas pela Yélé Haiti e pelos Médicos Sem Fronteiras (MSF). Infelizmente, ela não existe mais.
No momento de maior violência, Bel Air era inacessível, mas o objetivo era tirar as crianças das ruas, desmobilizar os jovens envolvidos em violência armada e sensibilizar os adultos sobre o problema. A população aceitava bem a idéia da Zakat Zanfan, mesmo aqueles que semeavam a violência no bairro, os chefes de gangues.
A sua organização promovia o DDR?
Na época havia atividades de DDR no bairro, mas não foram bem sucedidas. Já as crianças aceitavam bem e participavam das atividades propostas pela Zakat Zanfan, apesar de alguns preferirem as “bases” onde o conflito se desenrolava.
Qual era a natureza do conflito experimentado na sua região?
Os conflitos sempre foram de natureza diversa. Em 2000, eram basicamente brigas entre as zonas da localidade. Depois houve um período de paz, mas em 2004 o conflito retornou. A população reivindicava a volta do presidente Aristide, o respeito à Constituição e o direito ao voto.
Os grupos do setor popular de Cité Soleil, Fort-Dimanche, La Saline, Fort-Touron, Delmas 2 e Solino se opuseram ao governo de transição em 2005. Depois houve brigas entre esses grupos por motivos não-políticos. Em novembro de 2005, recomeçaram as atividades de DDR e um acordo de paz em maio de 2007, assinado pelos líderes dos grupos, restituiu a paz à região.
Quem eram os mais afetados pelo conflito?
As crianças, os jovens e as mulheres. O foco da Zakat Zanfan era ajudar as crianças e salvá-las da violência, sensibilizando também os adultos.
Quais foram as maiores dificuldades enfrentadas para tornar a vida mais próxima de uma realidade pacífica?
Conflitos entre gangues, roubos e tiroteios. Até então os chefes de gangue aceitavam bem o meu trabalho. Antes do DDR, eles me encorajavam, aconselhavam as crianças a me procurar em busca de proteção, mesmo aqueles que estavam no território sob seu domínio. Depois da chegada do DDR, os chefes de gangue se aborreceram, alguns saíram do bairro em direção a Cité Soleil para fugir do DDR.
De que direitos a população local ficou privada durante o conflito? Como é hoje?
A população era – e a inda é – privada de direitos fundamentais, como saúde, educação, água potável, eletricidade, direito ao voto, direito de expressão e de manifestação. Hoje, diferentes organizações estão presentes em Bel Air para garantir e proteger estes direitos, como o Viva Rio, o Yélé Haiti, Concern, MSF, Organização Internacional para as Migrações (OIM), Fundação Panamericana para o Desenvolvimento (Padf), Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), Assistência Médica Internacional (AMI). Resta a questão da eficácia desses projetos na garantia desses direitos.
Quais foram as maiores conquistas da população local em relação à garantia de seus direitos fundamentais durante o conflito?
Pelo menos o direito de manifestação foi conquistado... Em 27 de abril de 2005, houve uma grande manifestação nas ruas, os bairros desfavorecidos marcharam até o escritório da ONU. A maior reivindicação era o direito à vida, à saúde, ao respeito a todos. Estas manifestações se repetiram a cada data comemorativa nacional. Hoje, com a ajuda das ONGs, os dirigentes parecem compreender as reivindicações da população e o desenvolvimento apazigua a situação de conflito.
*colaborou Aline Gatto Boueri
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